Seus coturnos de couro preto amorteciam os passos arrastados
e iam ficando um tanto quanto úmidos devido a chuva recente. O céu ainda estava
nublado. Como depois de uma tempestade ainda pode existir a possibilidade de
tal continuar, ou mesmo um lembrete irônico da natureza. A medida que
caminhava, árvores passavam como testemunhas-estátuas. Estavam com aquele aspecto
letárgico digno do outono, quando as folhas caem e o clima torna-se ameno. Era
uma tristeza boa que tomava conta de seu peito. Boa, porque não dói a ponto de
sangrar metaforicamente e também faz as honras de correntes que a atam no chão
e impedem que seus pés voem com conjeturas mirabolantes. Tal tristeza sem
motivo evidente, talvez em decorrência do clima, talvez pelo simples conforto
de se permitir sentir, talvez pelos pensamentos confusos. Esta enxurrada de
razões sem nexo aparente não respondiam suas dúvidas. Tampouco resolvia seus
problemas. Queria uma nova identidade, embora tivesse plena consciência de
tamanha covardia. Como de fato tal desejo não poderia ser realizado deveria
rever seus passos e descobrir onde falhara, onde todo desentendimento tivera
inicio. Sempre começa com uma fagulha, pequenina, sem importância que depois
cresce e toma proporções monstruosas ao ser alimentada pela loucura. Doce
loucura. Privilégio e sina. Como consequência de pecado e benção ao mesmo
tempo. Se permitir abraçar a loucura é para poucos. Poucos são aqueles felizes
em sua própria e simplória loucura. Pois a vaidade a contamina e a atenção se
torna um vício. Aquela pequena fagulha cresceu regada de insanidades e sandices
vaidosas. Atenção fora confundida com carinho. E carinho tornou-se amor por uma
falha de interpretação. Se foi de ambas as partes, não se sabe. Mas da dela, sim.
Criou uma ilusão acesa pela maldita fagulha de atenção. Se o céu ao menos
estivesse ensolarado. Se as nuvens pudessem ao menos estar sorrindo num
delicioso tom claro misturando se ao céu límpido e azul. Mas fortuna não era
seu forte. Deusa maldita. Cruel destino? Não. Não queria culpar o destino ou
sua própria falta de sorte por seus erros. Cometidos com enfática veemência.
Coloriu o que era cinza e contornou com canetinhas gastas as falhas. Afinal,
queria acreditar. Crer num amor impossível, vivenciar uma situação inusitada e
acordar com um sorriso no dia seguinte, dias atrás sim, agora, outra história.
O sinal se abriu e carros passavam como vultos, fantasmas modernos e
apressados. Fechara os olhos e contara até dez. Ao abri-los deu um passo a
frente. Recitara alguns versos de um poema antigo ou uma canção infantil, não
sabia ao certo. Talvez a loucura pudesse lhe guiar uma última vez. A verdade
ficou algumas quadras atrás e ,fora a tristeza, sua consciência estava limpa.
Fantasmas levaram suas preocupações, assim como um último suspiro.
Pensamentos.Alguns bobos.Outros alegres ou tristes.Animados.Sobre tudo.Sobre nada.Enfim só pensamentos,pequenas reflexões.
Wednesday, May 30, 2012
Tuesday, May 29, 2012
Bernie
Decidi que minha consciência terá um nome. Será mais fácil
conversar com a mesma se tiver um nome próprio. Optei por Bernie, é um nome
legal e parece de desenho animado. Amo animações. Queria eu ser um personagem
na Disney, teria no fim um happy ending sem discussão alguma. Só um fim, com
fogos de artifício e uma musiquinha agradável. Pois então Bernie. A
personificação da minha consciência. Não quero que crie vida própria e saia
falando o que eu realmente queria falar para tudo e todos. Uma vez isso aconteceu
e o resultado não foi muito bom. Honestidade demais assusta as pessoas. Todos
precisamos de uma máscara, disfarçar a verdade para fins protetores. Ninguém
gosta de ser o chato que aponta os defeitos e fala a áspera verdade, então fica
confortável como o amigo bonzinho que apoia qualquer decisão, mesmo as idiotas.
Bernie era assim. Ficava calado e nunca me parava. Ou então se tornava o amigo
chato e que aponta me torturando com minhas besteiras e bobagens. Bernie quando
não me segurou, simplesmente me deixara livre, não me impediu de falar pelos
cotovelos e balbuciar indagações ridículas que estavam guardadas no arquivo
secreto do meu inconsciente. Agora Bernie é meu bff. Conversamos altos papos.
Às vezes eu paro e tiro um tempo considerável só para trocar figurinhas com o
bendito. Bernie sabe dos meus medos, mesmo quando eu não tenho noção deles. Também
sabe minhas vontades até quando eu não as expresso. Agora, eu só quero que
Bernie fique feliz, tranquilo, que seja um bom amigo e me ajude a solucionar os
problemas. Sei que somente Bernie, que na verdade sou apenas eu, não conseguirá
solucionar todos eles. Por isso existem os amigos que eu não dei nome, eles já
vieram com um e eu apenas aceitei. Tanto Bernie e meus amigos sabem que não é
preciso ser um personagem de desenho animado pra ter um happy ending. Você
mesmo o faz, e espera que o destino seja legal contigo e te dê uma força, ai
então é só escolher a musiquinha legal.
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