Wednesday, May 30, 2012

Fantasmas



Seus coturnos de couro preto amorteciam os passos arrastados e iam ficando um tanto quanto úmidos devido a chuva recente. O céu ainda estava nublado. Como depois de uma tempestade ainda pode existir a possibilidade de tal continuar, ou mesmo um lembrete irônico da natureza. A medida que caminhava, árvores passavam como testemunhas-estátuas. Estavam com aquele aspecto letárgico digno do outono, quando as folhas caem e o clima torna-se ameno. Era uma tristeza boa que tomava conta de seu peito. Boa, porque não dói a ponto de sangrar metaforicamente e também faz as honras de correntes que a atam no chão e impedem que seus pés voem com conjeturas mirabolantes. Tal tristeza sem motivo evidente, talvez em decorrência do clima, talvez pelo simples conforto de se permitir sentir, talvez pelos pensamentos confusos. Esta enxurrada de razões sem nexo aparente não respondiam suas dúvidas. Tampouco resolvia seus problemas. Queria uma nova identidade, embora tivesse plena consciência de tamanha covardia. Como de fato tal desejo não poderia ser realizado deveria rever seus passos e descobrir onde falhara, onde todo desentendimento tivera inicio. Sempre começa com uma fagulha, pequenina, sem importância que depois cresce e toma proporções monstruosas ao ser alimentada pela loucura. Doce loucura. Privilégio e sina. Como consequência de pecado e benção ao mesmo tempo. Se permitir abraçar a loucura é para poucos. Poucos são aqueles felizes em sua própria e simplória loucura. Pois a vaidade a contamina e a atenção se torna um vício. Aquela pequena fagulha cresceu regada de insanidades e sandices vaidosas. Atenção fora confundida com carinho. E carinho tornou-se amor por uma falha de interpretação. Se foi de ambas as partes, não se sabe. Mas da dela, sim. Criou uma ilusão acesa pela maldita fagulha de atenção. Se o céu ao menos estivesse ensolarado. Se as nuvens pudessem ao menos estar sorrindo num delicioso tom claro misturando se ao céu límpido e azul. Mas fortuna não era seu forte. Deusa maldita. Cruel destino? Não. Não queria culpar o destino ou sua própria falta de sorte por seus erros. Cometidos com enfática veemência. Coloriu o que era cinza e contornou com canetinhas gastas as falhas. Afinal, queria acreditar. Crer num amor impossível, vivenciar uma situação inusitada e acordar com um sorriso no dia seguinte, dias atrás sim, agora, outra história. O sinal se abriu e carros passavam como vultos, fantasmas modernos e apressados. Fechara os olhos e contara até dez. Ao abri-los deu um passo a frente. Recitara alguns versos de um poema antigo ou uma canção infantil, não sabia ao certo. Talvez a loucura pudesse lhe guiar uma última vez. A verdade ficou algumas quadras atrás e ,fora a tristeza, sua consciência estava limpa. Fantasmas levaram suas preocupações, assim como um último suspiro. 

Tuesday, May 29, 2012

Bernie



Decidi que minha consciência terá um nome. Será mais fácil conversar com a mesma se tiver um nome próprio. Optei por Bernie, é um nome legal e parece de desenho animado. Amo animações. Queria eu ser um personagem na Disney, teria no fim um happy ending sem discussão alguma. Só um fim, com fogos de artifício e uma musiquinha agradável. Pois então Bernie. A personificação da minha consciência. Não quero que crie vida própria e saia falando o que eu realmente queria falar para tudo e todos. Uma vez isso aconteceu e o resultado não foi muito bom. Honestidade demais assusta as pessoas. Todos precisamos de uma máscara, disfarçar a verdade para fins protetores. Ninguém gosta de ser o chato que aponta os defeitos e fala a áspera verdade, então fica confortável como o amigo bonzinho que apoia qualquer decisão, mesmo as idiotas. Bernie era assim. Ficava calado e nunca me parava. Ou então se tornava o amigo chato e que aponta me torturando com minhas besteiras e bobagens. Bernie quando não me segurou, simplesmente me deixara livre, não me impediu de falar pelos cotovelos e balbuciar indagações ridículas que estavam guardadas no arquivo secreto do meu inconsciente. Agora Bernie é meu bff. Conversamos altos papos. Às vezes eu paro e tiro um tempo considerável só para trocar figurinhas com o bendito. Bernie sabe dos meus medos, mesmo quando eu não tenho noção deles. Também sabe minhas vontades até quando eu não as expresso. Agora, eu só quero que Bernie fique feliz, tranquilo, que seja um bom amigo e me ajude a solucionar os problemas. Sei que somente Bernie, que na verdade sou apenas eu, não conseguirá solucionar todos eles. Por isso existem os amigos que eu não dei nome, eles já vieram com um e eu apenas aceitei. Tanto Bernie e meus amigos sabem que não é preciso ser um personagem de desenho animado pra ter um happy ending. Você mesmo o faz, e espera que o destino seja legal contigo e te dê uma força, ai então é só escolher a musiquinha legal.