Thursday, April 4, 2013

Rebelde sem causa



       Quarta feira de manhã. Escola. Trabalho. Cama. Quinta feira de manhã. Escola. Trabalho. Cama. Sexta feira. Escola. Trabalho. Festa. Prolongo os feriados e os fins de semana, admito curtir a vida e detestar trabalhar. Sou preguiçoso e trabalho só para pagar as contas, senão viraria eremita, curtiria a natureza, sombra e água fresca. Digo que estudar é para os fracos, porque na vida quem se dá bem são os malandros cheios de esperteza. Somente os tolos vivem a trabalhar como burros de carga.
       Quando era pequeno assumi minha natureza, vivia pregando peças em meus primos. Minhas tias diziam que eu era custoso e torciam para que fosse uma fase. Mas cresci e desde então me espelho em James Dean numa espécie de rebelde sem causa. Não quero viver na mesmice, tenho só uma oportunidade e quero aproveitá-la. Por isso resolvi fazer o que fiz.
       Fugi de casa para fazer um mochilão. Roubei o dinheiro da poupança de meus pais, coloquei o suficiente numa mochila e embarquei com uns conhecidos para uma viagem sem destino. Festas todo dia, mulheres e caronas com desconhecidos. Nenhuma dívida, pegava um bico ou outro para pagar pequenas despesas, fui sem dar satisfação a ninguém. Claro que devem estar fulos por ter pegado o dinheiro e simplesmente sumido. Mas nem devem estar sentindo minha falta, como podem? Sempre fui considerado a ovelha negra da família, sempre dei trabalho e desgosto, devem até estar contente por eu ter ido embora.
       Ao contrário de mim, meu irmão é o exemplo da perfeição. O filho impecavelmente obediente, educado e simpático. Meus pais, conservadores natos perguntam-se onde erraram comigo. Considero que o simples fato de meu irmão ser um mariquinha arrogante faz com que eu tenha um pensamento próprio e não queira ser como ele. Nunca fui o primeiro da turma, ele foi, não entrei numa universidade pública, ele entrou, já estive numa delegacia por diversos motivos, ele não, já participei de rachas e fumei maconha, o senhor perfeito nunca cometeu um ato ilícito nem em pensamento.
       Ganhei minha liberdade no momento que pus meus pés para fora de casa, vivo de acordo com minhas regras e vontades. Sou responsável apenas por mim mesmo, não tenho um sobrenome para carregar e uma família para sustentar. Não tenho responsabilidades com o amanhã e rompi com meu passado. Sem regras, sem lista de conduta e boas maneiras, porque só tenho a mim mesmo para agradar. 

Wednesday, July 25, 2012


Então, só então, eu soube o que significa ser feliz.
Esperamos demais do sentimento de felicidade, de estar bem consigo e com o mundo, esperamos ganhar na loteria ou realizar um ato heroico para sermos felizes.
Mas pra mim bastou apenas uma palavra.
Sabe, sempre me senti sozinho, incompreendido e blá blá blá. Aquele tipo de coisa comum de pessoas pseudoprofundas que se acham os intelectuais filosóficos com ideais inovadores rejeitados pelo mundo corrompido por uma sociedade superficial. Nunca soube o quão patético eu era, bem até aquele momento.
Beber café enquanto escrevia poemas/haicais/contos/discursos imaginários costumava ser um hábito constante no meu dia a dia. Achava-me o próprio escritor desconhecido e brilhante que precisava de um lugar tranquilo como aquela cafeteria velha e empoeirada pra descarregar suas paixões e inspirações num bloquinho surrado de anotações.
Pois bem, estava largado na minha mesa habitual quando aquele ser de outra dimensão surgiu na mesma área de oxigênio que eu inalava. Tinha cabelos coloridos como um arco-íris desbotado, mas de uma forma bonita, exalava sensualidade no mesmo tempo que transmitia inocência. Não usava roupas extravagantes, na verdade bem ordinárias, mas possuía um sorriso estampado no rosto de traços suaves. Tal sorriso, o qual não trazia segundas intenções ou maldade, somente uma alegria desconhecida.
Quero que saibam que essa não é uma história de amor à primeira vista, até porque no primeiro momento não fiquei embasbacado pela beleza da garota e sim pelo mistério de seu sorriso. Dia após dia eu via pessoas e pessoas, de todos os tipos, de todas as classes, alguns sorrindo outros com lágrimas, mas nenhuma com um sorriso como o dela. Eram sorrisos perversos ou falsos. Eu mesmo só sorria quando obrigado, numa entrevista de emprego ou  quando estava sexualmente necessitado, nem nos jantares de família – nos quais minha presença era ignorada, mas fortemente forçada pela megera de minha querida mãe – eu demonstrava algo remotamente parecido com alegria.
E ali estava uma pessoa comum – bem exceto pelo cabelo – com problemas comuns, penso eu, sorrindo como se o mundo fosse de fato um lugar bom para se viver. Nada fazia sentido mais para mim, pois eu partia do pressuposto de não existe ninguém verdadeiramente feliz na face dessa terra amaldiçoada, esquecida pelos deuses e maltratada pelos homens. Pois bem, acabara de encontrar um ser humano que contradiz minha teoria. O que aquele ser frágil e desinteressante possuía que a fazia assim, o que ela tinha de tão especial que mantinha aquele sorriso genuíno em seu rosto pequeno?
Sou curioso, meio cara de pau mesmo como dizia minha professora do colegial – a qual me fez ser suspenso por fazer suposições de sua fracassada vida sexual – então fui até onde se encontrava a moça e fiz a pergunta.
“Como você consegue ser feliz assim?”
De início não obtive uma resposta, porque a peguei de surpresa. Mas depois de um par de segundos, ela sorriu e me disse:
“Por que não ser feliz? Afinal o que pode nos impedir de sermos felizes?”
Dei uma risadinha sarcástica e meio descrente.
“Ãhnn... tudo.”
“Pois bem você errou por um detalhe...nada. Nada possui o direito ou a importância para retirar lhe o dom de ser feliz.”
Sentei-me e espreitei os olhos diante da pequena mulher na minha frente.
“Continue, gostaria de compreender.”
“Bem hoje não tenho muito tempo, mas quando encontrar a si mesmo perdido dentro de suas indagações e revoltas tente então viver um pouco, pare de analisar e talvez possa encontrar o sorriso perdido ai dentro.”
Ela então levantou-se e se foi. Deixando-me confuso ao refletir em sua filosofia tão contraditória com a minha.
Viver. Primeiramente pensei, pois bem o que faço todos os dias de minha vida, oras, estou vivendo, infelizmente. Então a luz da compreensão iluminou meu julgamento.
O que faço apenas é sobreviver, um dia de cada vez, vivo sem um propósito, sem alguém para amar ou sem algo para acreditar. Sobreviver transformou-me num animal, vivendo sua rotina para satisfazer minhas necessidades sem se preocupar ou crer em algo maior, num amanhã ou em mim mesmo.
O bloquinho continua cheio de palavras.
Ainda bebo café.
Sorrir virou um exercício, para depois tornar-se um hábito.
Viver não é uma obrigação, é um ato prazeroso, basta encontrar os meios certos.

Wednesday, May 30, 2012

Fantasmas



Seus coturnos de couro preto amorteciam os passos arrastados e iam ficando um tanto quanto úmidos devido a chuva recente. O céu ainda estava nublado. Como depois de uma tempestade ainda pode existir a possibilidade de tal continuar, ou mesmo um lembrete irônico da natureza. A medida que caminhava, árvores passavam como testemunhas-estátuas. Estavam com aquele aspecto letárgico digno do outono, quando as folhas caem e o clima torna-se ameno. Era uma tristeza boa que tomava conta de seu peito. Boa, porque não dói a ponto de sangrar metaforicamente e também faz as honras de correntes que a atam no chão e impedem que seus pés voem com conjeturas mirabolantes. Tal tristeza sem motivo evidente, talvez em decorrência do clima, talvez pelo simples conforto de se permitir sentir, talvez pelos pensamentos confusos. Esta enxurrada de razões sem nexo aparente não respondiam suas dúvidas. Tampouco resolvia seus problemas. Queria uma nova identidade, embora tivesse plena consciência de tamanha covardia. Como de fato tal desejo não poderia ser realizado deveria rever seus passos e descobrir onde falhara, onde todo desentendimento tivera inicio. Sempre começa com uma fagulha, pequenina, sem importância que depois cresce e toma proporções monstruosas ao ser alimentada pela loucura. Doce loucura. Privilégio e sina. Como consequência de pecado e benção ao mesmo tempo. Se permitir abraçar a loucura é para poucos. Poucos são aqueles felizes em sua própria e simplória loucura. Pois a vaidade a contamina e a atenção se torna um vício. Aquela pequena fagulha cresceu regada de insanidades e sandices vaidosas. Atenção fora confundida com carinho. E carinho tornou-se amor por uma falha de interpretação. Se foi de ambas as partes, não se sabe. Mas da dela, sim. Criou uma ilusão acesa pela maldita fagulha de atenção. Se o céu ao menos estivesse ensolarado. Se as nuvens pudessem ao menos estar sorrindo num delicioso tom claro misturando se ao céu límpido e azul. Mas fortuna não era seu forte. Deusa maldita. Cruel destino? Não. Não queria culpar o destino ou sua própria falta de sorte por seus erros. Cometidos com enfática veemência. Coloriu o que era cinza e contornou com canetinhas gastas as falhas. Afinal, queria acreditar. Crer num amor impossível, vivenciar uma situação inusitada e acordar com um sorriso no dia seguinte, dias atrás sim, agora, outra história. O sinal se abriu e carros passavam como vultos, fantasmas modernos e apressados. Fechara os olhos e contara até dez. Ao abri-los deu um passo a frente. Recitara alguns versos de um poema antigo ou uma canção infantil, não sabia ao certo. Talvez a loucura pudesse lhe guiar uma última vez. A verdade ficou algumas quadras atrás e ,fora a tristeza, sua consciência estava limpa. Fantasmas levaram suas preocupações, assim como um último suspiro. 

Tuesday, May 29, 2012

Bernie



Decidi que minha consciência terá um nome. Será mais fácil conversar com a mesma se tiver um nome próprio. Optei por Bernie, é um nome legal e parece de desenho animado. Amo animações. Queria eu ser um personagem na Disney, teria no fim um happy ending sem discussão alguma. Só um fim, com fogos de artifício e uma musiquinha agradável. Pois então Bernie. A personificação da minha consciência. Não quero que crie vida própria e saia falando o que eu realmente queria falar para tudo e todos. Uma vez isso aconteceu e o resultado não foi muito bom. Honestidade demais assusta as pessoas. Todos precisamos de uma máscara, disfarçar a verdade para fins protetores. Ninguém gosta de ser o chato que aponta os defeitos e fala a áspera verdade, então fica confortável como o amigo bonzinho que apoia qualquer decisão, mesmo as idiotas. Bernie era assim. Ficava calado e nunca me parava. Ou então se tornava o amigo chato e que aponta me torturando com minhas besteiras e bobagens. Bernie quando não me segurou, simplesmente me deixara livre, não me impediu de falar pelos cotovelos e balbuciar indagações ridículas que estavam guardadas no arquivo secreto do meu inconsciente. Agora Bernie é meu bff. Conversamos altos papos. Às vezes eu paro e tiro um tempo considerável só para trocar figurinhas com o bendito. Bernie sabe dos meus medos, mesmo quando eu não tenho noção deles. Também sabe minhas vontades até quando eu não as expresso. Agora, eu só quero que Bernie fique feliz, tranquilo, que seja um bom amigo e me ajude a solucionar os problemas. Sei que somente Bernie, que na verdade sou apenas eu, não conseguirá solucionar todos eles. Por isso existem os amigos que eu não dei nome, eles já vieram com um e eu apenas aceitei. Tanto Bernie e meus amigos sabem que não é preciso ser um personagem de desenho animado pra ter um happy ending. Você mesmo o faz, e espera que o destino seja legal contigo e te dê uma força, ai então é só escolher a musiquinha legal. 

Sunday, March 25, 2012

Um sonho de inverno



Sabia que não era só outro sonho. Ao menos não de verão e sim de inverno. 
Aquela brisa gelada nos cabelos negros, as bochechas rosadas e respiração visível.
Ela era só uma garotinha. Tinha aparência de mulher e mente de menina. Debaixo da cerejeira congelada, ela cantou para si mesma uma canção de ninar.
Durma menina bonita que daqui a pouco o sol virá. A lua brilha no céu enfeitado com mil e uma estrelas cintilantes. Feche os olhos e imagine coisas bonitas. Uma estrela te darei e a lua brilhará só por você. Não há razão para chorar, menina bonita. Os pássaros cantam e logo o dia irá raiar. Mas por enquanto, linda menina, sonhe com aquele que amará. 
Ele andava de cabeça baixa e perdido em pensamentos. Caminhava lentamente ser ter um destino certo. Era um moço elegante, de porte altivo e olhos bonitos. Estes mesmos olhos brilharam quando avistaram aquela garotinha. 
A mais bela visão de sua vida possuía a voz mais doce e encantadora que já escutara. Uma bela moça debaixo da cerejeira cantava e suspirava. Ah, se ele soubesse que era ele, o dono de seus sonhos.
Outra voz ao longe, pode-se ouvir. Era autoritária e firme, chamava-a pelo nome - e que belo nome- então ele se desesperou, pensando que nunca mais iria vê-la. Ela correu de encontro à voz e saiu de seu campo de visão. 
Não vira mais a bela moça depois daquele dia. Ainda assim, frequentava sempre o mesmo parque da cerejeira. Passeava com uma pequena esperança de revê-la. 
Acabou o inverno, a primavera passou, e também o verão e o outono. Era inverno novamente e outra vez ele encontrara a bela moça.
Ele era o herdeiro de uma grande companhia de grande prestígio. Portanto era um solteiro cobiçado, não apenas por isso, mas também devido a sua beleza. Não tinha muitos sonhos para o futuro, pois estava encarregado de comandar a empresa do pai quando este se aposentar. Mas pensava nela e recusava as outras moças que viera a conhecer. 
Ela era uma filha de um grande empresário também. No entanto, estavam passando por problemas financeiros. Como filha dedicada se preocupava com o pai e seu futuro. Ela sabia de suas responsabilidades e de seu futuro já comprometido com algum casamento arranjado. Porém seus sonhos eram outros. Queria viver um grande amor, ter uma vida simples e ganhar a mesma a partir do próprio trabalho. Talvez fosse mesmo ter que trabalhar no fim, mas o orgulho de seu pai a impedia de correr atrás deste sonho.
O destino então os juntara novamente, ela não o conhecia e ele decorara seus traços nos poucos segundos em que a vira. 
Estavam num ambiente ostentoso. Era uma festa da elite japonesa. Objetos de decoração em tons dourados e vermelhos espalhados pelo salão, um lustre de cristal suntuoso enfeitando o teto decorado com detalhes artísticos no gesso, garçons em traje formal servindo champanhe caro em bandejas de prata. Em todo o lugar via-se pessoas de porte nobre vestidos de modo formal, as mulheres com joias lapidadas em pedras preciosas dos mais variados tipos, homens de smoking exibindo seus discursos polidos com palavras difíceis e sorrisos políticos.
Mas num canto, longe da agitação e dos sorrisos falsos jazia a doce moça da voz de anjo. Ela sorria para o teto, admirada com todos aqueles detalhes delicados. Nada poderia tirar seu sorriso, sempre via o lado bom das coisas. Desde menina, sempre fora otimista e alegre. Perdera a mãe muito cedo, porém isso só a recorda de estar sempre feliz para não entristecer a mãe que a observava do paraíso.
Do outro lado do salão o anfitrião pede silêncio a todos. Era um senhor com aparência austera, por baixo das rugas dava para ver que fora tão bonito quanto seu filho aparenta ser. Começou seu discurso e a menina piscava em silêncio transbordando de curiosidade. O que estaria fazendo ali? Seu pai estava na iminência de falir e fechar para sempre as portas de sua empresa, para completa desonra de seu falecido avô. Mesmo assim, esse senhor nos convidara.
Então o senhor rico disse “Chegou a hora de me aposentar, minha saúde já não é a mesma e quero aproveitar o tempo que me resta com minha bela esposa.” Ele deu um passo à frente e segurou seu filho pelos ombros. “Por isso, também chegou a hora de um novo começo para nossa empresa, sob o hábil comando do meu amado filho e herdeiro.”
O rapaz sorria contente por receber a confiança de seu pai, mas também estava nervoso diante da nova responsabilidade não podia decepcioná-lo. A moça também se perdera em pensamentos, ficara admirada de perceber a semelhança entre o belo rapaz e o homem de seus sonhos. Sim, sonhara com ele, tudo era igual, mas não fazia sentido algum. Como pode esse completo estranho habitar seus sonhos mais íntimos?
Todos aplaudiram e brindaram ao novo presidente. Este que já era assediado por inúmeras mulheres ficara ainda mais interessante. Contudo só havia uma em seus pensamentos, e esta era inalcançável. Chegara até a conclusão de que tudo não passou de um fruto de sua imaginação. “E que imaginação.” Ele pensara entre goles de champanhe.
O pai da moça era cordial com todos, porém continuava reservado, todos sabiam de sua situação, mas ninguém se dispusera a ajudá-lo. Ele também não aceitaria, seu orgulho era maior que seu sustento. Entretanto suas preocupações se convergiam para sua amada filha. Uma menina tão meiga e linda a qual merecia um futuro melhor do que aquele que o pobre pai pode oferecer. Casá-la talvez fosse a melhor solução, não queria se separar de sua princesa, depois que perdera a esposa ela tornou-se sua única companhia, assim como o trabalho. Ele bem sabia também que homem nenhum seria digno de sua filha, ou de seu coração.
Para o destino somos todos peças de seu jogo. Peões em um jogo de xadrez, brinquedos para seu bel prazer. Pode então o destino jogar conforme a felicidade dos apaixonados? Poderia ele reconhecer o amor que nascera entre os dois e juntá-los em um só? Tudo começara debaixo de uma cerejeira, numa tarde de inverno, ou será que já havia sido escrito e, portanto iniciado há muito tempo atrás?
Ambos se retiraram para o jardim a fim de fugirem do ambiente de extrema formalidade. Ela ainda sonhava com uma vida simples, mas seus pensamentos estavam envoltos do lindo desconhecido. Poderia desistir de seu sonho em prol de uma paixão recém-descoberta, ela se perguntava.
Ele não conseguia crer, seus olhos deveriam estar lhe pregando uma peça. Uma linda ilusão encontra-la tão encantadora numa festa em sua homenagem. Aproximou-se devagar, medindo a com o olhar, estava perdida em pensamentos, preocupada com alguma coisa. Como gostaria de retirar as pequenas rugas de seu cenho franzido e fazê-la sorrir. Talvez, só talvez, tivesse uma chance, teria que arriscar.
“Uma linda noite de inverno não? As estrelas estão brilhando com a iminência da primavera.” O jovem disse, colocando-se ao lado da bela moça. Ela se encontrava surpresa, as batidas de seu coração falhando com a rapidez de suas emoções. Seus olhos se encontraram, sim era ele, o mesmo dos sonhos. “Minha mãe costumava dizer que as estrelas brilhavam mais quando algo bom está para acontecer.” Ela respondeu com um sorriso tímido.
“Quem sabe este seja o início de algo maravilhoso.” Ele disse de modo sugestivo. Também estava nervoso, mas disfarçava com sua pose elegante. “Já não nos conhecemos?” Ela perguntou, talvez o tenha visto fora de seus sonhos, só não sabia onde. Ele sorriu e estava prestes a dizer que sim, iria contar-lhe do dia no parque.
Porém os pais de ambos vinham ao encontro dos dois naquele momento.
“Ora, vejo que já se conheceram. Isso é bom, muito bom. Filho esta é Sakura Nishimura, e este é seu pai, Takashi Nishimura. São velhos amigos da família e de seu falecido avô.” O senhor anfitrião disse ao filho. “Sakura, querida, vejo que conhecera o Hiroshi.” A moça assentiu para o pai e retornou o olhar para o rapaz, então era esse o nome dele. Combina com sua aparência bonita e sua personalidade poética. “Hum, enfim Takashi. Acho que é uma boa hora para contar lhes as novidades.” Disse o pai de Hiroshi. Os jovens estavam curiosos e se atentaram para notícias dos mais velhos. “Filha, eu e o senhor Nakamura conversamos e decidimos seguir a vontade de seu avô, assim como a do avô do jovem Hiroshi.” O senhor Nakamura retirou do bolso metade de um medalhão já antigo, uma relíquia de família. Hiroshi engoliu em seco entendendo o propósito de seu pai. “Este medalhão está na família há gerações, anos atrás a metade dele fora dada para a família de sua futura esposa.” Sakura então ficara estática ao ver a outra metade nas mãos de seu pai. “Minha filha preciosa, tenho certeza que a vontade de seu avô faz parte da melhor das intenções, também conheço a família Nakamura e sei que Hiroshi será um marido exemplar para você.” Takashi disse para filha com os olhos úmidos pela emoção. Tanto Sakura quanto Hiroshi se inclinaram e aceitaram a ordem dos pais.
Um casamento arranjado. Sakura sabia que isto salvaria seu pai, sua honra e sua empresa. No entanto era um casamento arranjado, tinha a impressão que era aquele o homem de seus sonhos, mas isso não impedia sua insegurança.
Hiroshi tentava segurar sua expressão de felicidade, a moça que procurara tanto, a qual se apaixonara pela primeira vista, seria sua esposa. Teria que segurar suas emoções e não espantar a moça, ele faria de tudo para ganhar seu coração.
Anunciaram o casamento, seria um grande evento para a elite japonesa. Também uma grande perda para as solteiras de plantão. Ambos eram extremamente cordiais um com o outro, mas mal sabiam que nos pensamentos e coração de cada um residia o outro. Seria estranho admitir amar alguém cuja existência fora revelada há tão pouco tempo?
Fora tão rápido, o noivado, o casamento. Estavam anestesiados, faziam tudo quanto eram lhes dito, sorriam, acenavam e falavam quando mandavam. Por dentro estavam confusos e felizes. Pois acharam um ao outro. O destino, sim, prega peças, ri das desgraças que monta cuidadosamente. Porém também é gentil com aqueles que abrigam um coração puro e carregam um amor verdadeiro.
Sem saber, tudo começara debaixo de uma cerejeira numa tarde de inverno qualquer. Os finais felizes são de certa forma clichês, mas são tradicionais e confortantes. Como a brisa de inverno, a garoa do outono e florescer da primavera. Clichês típicos e bonitos compõem um simples conto, um simples sonho. Não de verão, este se passa no inverno na iminência da primavera quando as estrelas brilham mais. 

Sunday, March 4, 2012

Meus amigos

Uma realidade completamente diferente. Uma passagem para outra dimensão. Um passeio por outra vida. Novos amigos e inimigos. Sonhos loucos que não te pertencem. Mas você compartilha da emoção vivida por aquele autor. Um livro abre portas para nossas imaginações. Podemos nos infiltrar em outras vidas, enxergar como uma mosquinha o decorrer de um romance ou de uma batalha por poder. Lugares infinitos e um universo de possibilidades. Esqueço o mundo e o que está ao meu redor quando folheio as páginas de uma boa história. Rio e choro com os protagonistas. Apaixono e torço por eles. Quero sempre um final feliz, mas bato palmas para um bom final triste. Ainda assim crio minha versão. E se... aquele velho sentimento de perda quando a história acaba. Sinto-me quase órfã. Em algumas vezes o final já é previsível. Você simplesmente sabe que o herói vai ficar com a mocinha ou que aquele casal que se odeia vai se acertar. No entanto, a curiosidade te segura e você quer ver o desenrolar da história. As vezes somos surpreendidos, pegos de surpresa por algum autor esperto. Os livros geram sentimentos e incitam pensamentos, reflexões. Espero aprender algo ou mergulhar num mundo novo cheio de novidades e coisas incríveis. Nunca sou a mesma,sou uma princesa, uma guerreira, ou uma garotinha qualquer que guarda algum segredo. Adoro mistérios não resolvidos. Espero até o final para serem solucionados. Afinal quem era o assassino? Como uma boa chorona, choro com uma boa história e aguardo ansiosamente pela próxima aventura.


Friday, March 2, 2012

Extremo

Sabe às vezes as pessoas te surpreendem. Simplesmente porque fazemos uma leitura muito sensorial e portanto superficial delas. Nós julgamos o livro pela capa, como se diz no jargão popular. Isto somente acontece porque é difícil conhecer alguém. Julgamos porque não temos paciência ou tempo para conhecer a fundo as pessoas. Todos somos iguais para que perder tempo conhecendo só mais um. Ou então, sou melhor que esse aí não tem porque me preocupar em conhecê-lo. Admita, isso acontece. Mesmo sem querer nosso subconsciente julga. Achamos tal pessoa gorda demais, magra demais, bonita demais, feia demais, inteligente demais ou burra demais. Somos extremistas. E o meio-termo? Ninguém é ideal ou perfeito. A perfeição se limita ao divino e à imaginação humana. Portanto não devemos, nem podemos exigir dos demais mais do que exigimos de nós mesmos. Aliás, o ser humano é um bicho extremamente exigente. Não que seja errado, mas quando o nível de seletividade chega ao exagero tendemos a ser chatos. Sim, chatos. E não discuta. TODOS somos chatos. Alguns mais, outros menos. Existem níveis de chatice. Por que esse defeito é comum? Porque julgamos, porque exigimos, porque somos perfeccionistas. E isso nos torna chatos. Fim.

PS.: Eu me considero extremamente chata.