Então, só então, eu soube o que significa ser feliz.
Esperamos demais do sentimento de felicidade, de estar bem
consigo e com o mundo, esperamos ganhar na loteria ou realizar um ato heroico para
sermos felizes.
Mas pra mim bastou apenas uma palavra.
Sabe, sempre me senti sozinho, incompreendido e blá blá blá.
Aquele tipo de coisa comum de pessoas pseudoprofundas que se acham os
intelectuais filosóficos com ideais inovadores rejeitados pelo mundo corrompido
por uma sociedade superficial. Nunca soube o quão patético eu era, bem até aquele
momento.
Beber café enquanto escrevia poemas/haicais/contos/discursos
imaginários costumava ser um hábito constante no meu dia a dia. Achava-me o
próprio escritor desconhecido e brilhante que precisava de um lugar tranquilo
como aquela cafeteria velha e empoeirada pra descarregar suas paixões e inspirações
num bloquinho surrado de anotações.
Pois bem, estava largado na minha mesa habitual quando
aquele ser de outra dimensão surgiu na mesma área de oxigênio que eu inalava.
Tinha cabelos coloridos como um arco-íris desbotado, mas de uma forma bonita,
exalava sensualidade no mesmo tempo que transmitia inocência. Não usava roupas
extravagantes, na verdade bem ordinárias, mas possuía um sorriso estampado no
rosto de traços suaves. Tal sorriso, o qual não trazia segundas intenções ou
maldade, somente uma alegria desconhecida.
Quero que saibam que essa não é uma história de amor à
primeira vista, até porque no primeiro momento não fiquei embasbacado pela
beleza da garota e sim pelo mistério de seu sorriso. Dia após dia eu via
pessoas e pessoas, de todos os tipos, de todas as classes, alguns sorrindo
outros com lágrimas, mas nenhuma com um sorriso como o dela. Eram sorrisos
perversos ou falsos. Eu mesmo só sorria quando obrigado, numa entrevista de
emprego ou quando estava sexualmente necessitado, nem nos jantares de família – nos quais
minha presença era ignorada, mas fortemente forçada pela megera de minha
querida mãe – eu demonstrava algo remotamente parecido com alegria.
E ali estava uma pessoa comum – bem exceto pelo cabelo – com
problemas comuns, penso eu, sorrindo como se o mundo fosse de fato um lugar bom
para se viver. Nada fazia sentido mais para mim, pois eu partia do pressuposto
de não existe ninguém verdadeiramente feliz na face dessa terra amaldiçoada, esquecida
pelos deuses e maltratada pelos homens. Pois bem, acabara de encontrar um ser
humano que contradiz minha teoria. O que aquele ser frágil e desinteressante
possuía que a fazia assim, o que ela tinha de tão especial que mantinha aquele
sorriso genuíno em seu rosto pequeno?
Sou curioso, meio cara de pau mesmo como dizia minha
professora do colegial – a qual me fez ser suspenso por fazer suposições de sua
fracassada vida sexual – então fui até onde se encontrava a moça e fiz a pergunta.
“Como você consegue ser feliz assim?”
De início não obtive uma resposta, porque a peguei de
surpresa. Mas depois de um par de segundos, ela sorriu e me disse:
“Por que não ser feliz? Afinal o que pode nos impedir de
sermos felizes?”
Dei uma risadinha sarcástica e meio descrente.
“Ãhnn... tudo.”
“Pois bem você errou por um detalhe...nada. Nada possui o
direito ou a importância para retirar lhe o dom de ser feliz.”
Sentei-me e espreitei os olhos diante da pequena mulher na
minha frente.
“Continue, gostaria de compreender.”
“Bem hoje não tenho muito tempo, mas quando encontrar a si
mesmo perdido dentro de suas indagações e revoltas tente então viver um pouco,
pare de analisar e talvez possa encontrar o sorriso perdido ai dentro.”
Ela então levantou-se e se foi. Deixando-me confuso ao refletir em sua filosofia tão contraditória com a minha.
Viver. Primeiramente pensei, pois bem o que faço todos os
dias de minha vida, oras, estou vivendo, infelizmente. Então a luz da compreensão
iluminou meu julgamento.
O que faço apenas é sobreviver, um dia de cada vez, vivo sem
um propósito, sem alguém para amar ou sem algo para acreditar. Sobreviver
transformou-me num animal, vivendo sua rotina para satisfazer minhas
necessidades sem se preocupar ou crer em algo maior, num amanhã ou em mim
mesmo.
O bloquinho continua cheio de palavras.
Ainda bebo café.
Sorrir virou um exercício, para depois tornar-se um hábito.
Viver não é uma obrigação, é um ato prazeroso, basta
encontrar os meios certos.
