Wednesday, July 25, 2012


Então, só então, eu soube o que significa ser feliz.
Esperamos demais do sentimento de felicidade, de estar bem consigo e com o mundo, esperamos ganhar na loteria ou realizar um ato heroico para sermos felizes.
Mas pra mim bastou apenas uma palavra.
Sabe, sempre me senti sozinho, incompreendido e blá blá blá. Aquele tipo de coisa comum de pessoas pseudoprofundas que se acham os intelectuais filosóficos com ideais inovadores rejeitados pelo mundo corrompido por uma sociedade superficial. Nunca soube o quão patético eu era, bem até aquele momento.
Beber café enquanto escrevia poemas/haicais/contos/discursos imaginários costumava ser um hábito constante no meu dia a dia. Achava-me o próprio escritor desconhecido e brilhante que precisava de um lugar tranquilo como aquela cafeteria velha e empoeirada pra descarregar suas paixões e inspirações num bloquinho surrado de anotações.
Pois bem, estava largado na minha mesa habitual quando aquele ser de outra dimensão surgiu na mesma área de oxigênio que eu inalava. Tinha cabelos coloridos como um arco-íris desbotado, mas de uma forma bonita, exalava sensualidade no mesmo tempo que transmitia inocência. Não usava roupas extravagantes, na verdade bem ordinárias, mas possuía um sorriso estampado no rosto de traços suaves. Tal sorriso, o qual não trazia segundas intenções ou maldade, somente uma alegria desconhecida.
Quero que saibam que essa não é uma história de amor à primeira vista, até porque no primeiro momento não fiquei embasbacado pela beleza da garota e sim pelo mistério de seu sorriso. Dia após dia eu via pessoas e pessoas, de todos os tipos, de todas as classes, alguns sorrindo outros com lágrimas, mas nenhuma com um sorriso como o dela. Eram sorrisos perversos ou falsos. Eu mesmo só sorria quando obrigado, numa entrevista de emprego ou  quando estava sexualmente necessitado, nem nos jantares de família – nos quais minha presença era ignorada, mas fortemente forçada pela megera de minha querida mãe – eu demonstrava algo remotamente parecido com alegria.
E ali estava uma pessoa comum – bem exceto pelo cabelo – com problemas comuns, penso eu, sorrindo como se o mundo fosse de fato um lugar bom para se viver. Nada fazia sentido mais para mim, pois eu partia do pressuposto de não existe ninguém verdadeiramente feliz na face dessa terra amaldiçoada, esquecida pelos deuses e maltratada pelos homens. Pois bem, acabara de encontrar um ser humano que contradiz minha teoria. O que aquele ser frágil e desinteressante possuía que a fazia assim, o que ela tinha de tão especial que mantinha aquele sorriso genuíno em seu rosto pequeno?
Sou curioso, meio cara de pau mesmo como dizia minha professora do colegial – a qual me fez ser suspenso por fazer suposições de sua fracassada vida sexual – então fui até onde se encontrava a moça e fiz a pergunta.
“Como você consegue ser feliz assim?”
De início não obtive uma resposta, porque a peguei de surpresa. Mas depois de um par de segundos, ela sorriu e me disse:
“Por que não ser feliz? Afinal o que pode nos impedir de sermos felizes?”
Dei uma risadinha sarcástica e meio descrente.
“Ãhnn... tudo.”
“Pois bem você errou por um detalhe...nada. Nada possui o direito ou a importância para retirar lhe o dom de ser feliz.”
Sentei-me e espreitei os olhos diante da pequena mulher na minha frente.
“Continue, gostaria de compreender.”
“Bem hoje não tenho muito tempo, mas quando encontrar a si mesmo perdido dentro de suas indagações e revoltas tente então viver um pouco, pare de analisar e talvez possa encontrar o sorriso perdido ai dentro.”
Ela então levantou-se e se foi. Deixando-me confuso ao refletir em sua filosofia tão contraditória com a minha.
Viver. Primeiramente pensei, pois bem o que faço todos os dias de minha vida, oras, estou vivendo, infelizmente. Então a luz da compreensão iluminou meu julgamento.
O que faço apenas é sobreviver, um dia de cada vez, vivo sem um propósito, sem alguém para amar ou sem algo para acreditar. Sobreviver transformou-me num animal, vivendo sua rotina para satisfazer minhas necessidades sem se preocupar ou crer em algo maior, num amanhã ou em mim mesmo.
O bloquinho continua cheio de palavras.
Ainda bebo café.
Sorrir virou um exercício, para depois tornar-se um hábito.
Viver não é uma obrigação, é um ato prazeroso, basta encontrar os meios certos.

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