Sunday, March 25, 2012

Um sonho de inverno



Sabia que não era só outro sonho. Ao menos não de verão e sim de inverno. 
Aquela brisa gelada nos cabelos negros, as bochechas rosadas e respiração visível.
Ela era só uma garotinha. Tinha aparência de mulher e mente de menina. Debaixo da cerejeira congelada, ela cantou para si mesma uma canção de ninar.
Durma menina bonita que daqui a pouco o sol virá. A lua brilha no céu enfeitado com mil e uma estrelas cintilantes. Feche os olhos e imagine coisas bonitas. Uma estrela te darei e a lua brilhará só por você. Não há razão para chorar, menina bonita. Os pássaros cantam e logo o dia irá raiar. Mas por enquanto, linda menina, sonhe com aquele que amará. 
Ele andava de cabeça baixa e perdido em pensamentos. Caminhava lentamente ser ter um destino certo. Era um moço elegante, de porte altivo e olhos bonitos. Estes mesmos olhos brilharam quando avistaram aquela garotinha. 
A mais bela visão de sua vida possuía a voz mais doce e encantadora que já escutara. Uma bela moça debaixo da cerejeira cantava e suspirava. Ah, se ele soubesse que era ele, o dono de seus sonhos.
Outra voz ao longe, pode-se ouvir. Era autoritária e firme, chamava-a pelo nome - e que belo nome- então ele se desesperou, pensando que nunca mais iria vê-la. Ela correu de encontro à voz e saiu de seu campo de visão. 
Não vira mais a bela moça depois daquele dia. Ainda assim, frequentava sempre o mesmo parque da cerejeira. Passeava com uma pequena esperança de revê-la. 
Acabou o inverno, a primavera passou, e também o verão e o outono. Era inverno novamente e outra vez ele encontrara a bela moça.
Ele era o herdeiro de uma grande companhia de grande prestígio. Portanto era um solteiro cobiçado, não apenas por isso, mas também devido a sua beleza. Não tinha muitos sonhos para o futuro, pois estava encarregado de comandar a empresa do pai quando este se aposentar. Mas pensava nela e recusava as outras moças que viera a conhecer. 
Ela era uma filha de um grande empresário também. No entanto, estavam passando por problemas financeiros. Como filha dedicada se preocupava com o pai e seu futuro. Ela sabia de suas responsabilidades e de seu futuro já comprometido com algum casamento arranjado. Porém seus sonhos eram outros. Queria viver um grande amor, ter uma vida simples e ganhar a mesma a partir do próprio trabalho. Talvez fosse mesmo ter que trabalhar no fim, mas o orgulho de seu pai a impedia de correr atrás deste sonho.
O destino então os juntara novamente, ela não o conhecia e ele decorara seus traços nos poucos segundos em que a vira. 
Estavam num ambiente ostentoso. Era uma festa da elite japonesa. Objetos de decoração em tons dourados e vermelhos espalhados pelo salão, um lustre de cristal suntuoso enfeitando o teto decorado com detalhes artísticos no gesso, garçons em traje formal servindo champanhe caro em bandejas de prata. Em todo o lugar via-se pessoas de porte nobre vestidos de modo formal, as mulheres com joias lapidadas em pedras preciosas dos mais variados tipos, homens de smoking exibindo seus discursos polidos com palavras difíceis e sorrisos políticos.
Mas num canto, longe da agitação e dos sorrisos falsos jazia a doce moça da voz de anjo. Ela sorria para o teto, admirada com todos aqueles detalhes delicados. Nada poderia tirar seu sorriso, sempre via o lado bom das coisas. Desde menina, sempre fora otimista e alegre. Perdera a mãe muito cedo, porém isso só a recorda de estar sempre feliz para não entristecer a mãe que a observava do paraíso.
Do outro lado do salão o anfitrião pede silêncio a todos. Era um senhor com aparência austera, por baixo das rugas dava para ver que fora tão bonito quanto seu filho aparenta ser. Começou seu discurso e a menina piscava em silêncio transbordando de curiosidade. O que estaria fazendo ali? Seu pai estava na iminência de falir e fechar para sempre as portas de sua empresa, para completa desonra de seu falecido avô. Mesmo assim, esse senhor nos convidara.
Então o senhor rico disse “Chegou a hora de me aposentar, minha saúde já não é a mesma e quero aproveitar o tempo que me resta com minha bela esposa.” Ele deu um passo à frente e segurou seu filho pelos ombros. “Por isso, também chegou a hora de um novo começo para nossa empresa, sob o hábil comando do meu amado filho e herdeiro.”
O rapaz sorria contente por receber a confiança de seu pai, mas também estava nervoso diante da nova responsabilidade não podia decepcioná-lo. A moça também se perdera em pensamentos, ficara admirada de perceber a semelhança entre o belo rapaz e o homem de seus sonhos. Sim, sonhara com ele, tudo era igual, mas não fazia sentido algum. Como pode esse completo estranho habitar seus sonhos mais íntimos?
Todos aplaudiram e brindaram ao novo presidente. Este que já era assediado por inúmeras mulheres ficara ainda mais interessante. Contudo só havia uma em seus pensamentos, e esta era inalcançável. Chegara até a conclusão de que tudo não passou de um fruto de sua imaginação. “E que imaginação.” Ele pensara entre goles de champanhe.
O pai da moça era cordial com todos, porém continuava reservado, todos sabiam de sua situação, mas ninguém se dispusera a ajudá-lo. Ele também não aceitaria, seu orgulho era maior que seu sustento. Entretanto suas preocupações se convergiam para sua amada filha. Uma menina tão meiga e linda a qual merecia um futuro melhor do que aquele que o pobre pai pode oferecer. Casá-la talvez fosse a melhor solução, não queria se separar de sua princesa, depois que perdera a esposa ela tornou-se sua única companhia, assim como o trabalho. Ele bem sabia também que homem nenhum seria digno de sua filha, ou de seu coração.
Para o destino somos todos peças de seu jogo. Peões em um jogo de xadrez, brinquedos para seu bel prazer. Pode então o destino jogar conforme a felicidade dos apaixonados? Poderia ele reconhecer o amor que nascera entre os dois e juntá-los em um só? Tudo começara debaixo de uma cerejeira, numa tarde de inverno, ou será que já havia sido escrito e, portanto iniciado há muito tempo atrás?
Ambos se retiraram para o jardim a fim de fugirem do ambiente de extrema formalidade. Ela ainda sonhava com uma vida simples, mas seus pensamentos estavam envoltos do lindo desconhecido. Poderia desistir de seu sonho em prol de uma paixão recém-descoberta, ela se perguntava.
Ele não conseguia crer, seus olhos deveriam estar lhe pregando uma peça. Uma linda ilusão encontra-la tão encantadora numa festa em sua homenagem. Aproximou-se devagar, medindo a com o olhar, estava perdida em pensamentos, preocupada com alguma coisa. Como gostaria de retirar as pequenas rugas de seu cenho franzido e fazê-la sorrir. Talvez, só talvez, tivesse uma chance, teria que arriscar.
“Uma linda noite de inverno não? As estrelas estão brilhando com a iminência da primavera.” O jovem disse, colocando-se ao lado da bela moça. Ela se encontrava surpresa, as batidas de seu coração falhando com a rapidez de suas emoções. Seus olhos se encontraram, sim era ele, o mesmo dos sonhos. “Minha mãe costumava dizer que as estrelas brilhavam mais quando algo bom está para acontecer.” Ela respondeu com um sorriso tímido.
“Quem sabe este seja o início de algo maravilhoso.” Ele disse de modo sugestivo. Também estava nervoso, mas disfarçava com sua pose elegante. “Já não nos conhecemos?” Ela perguntou, talvez o tenha visto fora de seus sonhos, só não sabia onde. Ele sorriu e estava prestes a dizer que sim, iria contar-lhe do dia no parque.
Porém os pais de ambos vinham ao encontro dos dois naquele momento.
“Ora, vejo que já se conheceram. Isso é bom, muito bom. Filho esta é Sakura Nishimura, e este é seu pai, Takashi Nishimura. São velhos amigos da família e de seu falecido avô.” O senhor anfitrião disse ao filho. “Sakura, querida, vejo que conhecera o Hiroshi.” A moça assentiu para o pai e retornou o olhar para o rapaz, então era esse o nome dele. Combina com sua aparência bonita e sua personalidade poética. “Hum, enfim Takashi. Acho que é uma boa hora para contar lhes as novidades.” Disse o pai de Hiroshi. Os jovens estavam curiosos e se atentaram para notícias dos mais velhos. “Filha, eu e o senhor Nakamura conversamos e decidimos seguir a vontade de seu avô, assim como a do avô do jovem Hiroshi.” O senhor Nakamura retirou do bolso metade de um medalhão já antigo, uma relíquia de família. Hiroshi engoliu em seco entendendo o propósito de seu pai. “Este medalhão está na família há gerações, anos atrás a metade dele fora dada para a família de sua futura esposa.” Sakura então ficara estática ao ver a outra metade nas mãos de seu pai. “Minha filha preciosa, tenho certeza que a vontade de seu avô faz parte da melhor das intenções, também conheço a família Nakamura e sei que Hiroshi será um marido exemplar para você.” Takashi disse para filha com os olhos úmidos pela emoção. Tanto Sakura quanto Hiroshi se inclinaram e aceitaram a ordem dos pais.
Um casamento arranjado. Sakura sabia que isto salvaria seu pai, sua honra e sua empresa. No entanto era um casamento arranjado, tinha a impressão que era aquele o homem de seus sonhos, mas isso não impedia sua insegurança.
Hiroshi tentava segurar sua expressão de felicidade, a moça que procurara tanto, a qual se apaixonara pela primeira vista, seria sua esposa. Teria que segurar suas emoções e não espantar a moça, ele faria de tudo para ganhar seu coração.
Anunciaram o casamento, seria um grande evento para a elite japonesa. Também uma grande perda para as solteiras de plantão. Ambos eram extremamente cordiais um com o outro, mas mal sabiam que nos pensamentos e coração de cada um residia o outro. Seria estranho admitir amar alguém cuja existência fora revelada há tão pouco tempo?
Fora tão rápido, o noivado, o casamento. Estavam anestesiados, faziam tudo quanto eram lhes dito, sorriam, acenavam e falavam quando mandavam. Por dentro estavam confusos e felizes. Pois acharam um ao outro. O destino, sim, prega peças, ri das desgraças que monta cuidadosamente. Porém também é gentil com aqueles que abrigam um coração puro e carregam um amor verdadeiro.
Sem saber, tudo começara debaixo de uma cerejeira numa tarde de inverno qualquer. Os finais felizes são de certa forma clichês, mas são tradicionais e confortantes. Como a brisa de inverno, a garoa do outono e florescer da primavera. Clichês típicos e bonitos compõem um simples conto, um simples sonho. Não de verão, este se passa no inverno na iminência da primavera quando as estrelas brilham mais. 

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