Sabia que não era só outro sonho. Ao menos não de verão e
sim de inverno.
Aquela brisa gelada nos cabelos negros, as bochechas rosadas
e respiração visível.
Ela era só uma garotinha. Tinha aparência de mulher e mente
de menina. Debaixo da cerejeira congelada, ela cantou para si mesma uma canção
de ninar.
Durma menina bonita que daqui a pouco o sol virá. A lua
brilha no céu enfeitado com mil e uma estrelas cintilantes. Feche os olhos e
imagine coisas bonitas. Uma estrela te darei e a lua brilhará só por você. Não
há razão para chorar, menina bonita. Os pássaros cantam e logo o dia irá raiar.
Mas por enquanto, linda menina, sonhe com aquele que amará.
Ele andava de cabeça baixa e perdido em pensamentos.
Caminhava lentamente ser ter um destino certo. Era um moço elegante, de porte
altivo e olhos bonitos. Estes mesmos olhos brilharam quando avistaram aquela garotinha.
A mais bela visão de sua vida possuía a voz mais doce e
encantadora que já escutara. Uma bela moça debaixo da cerejeira cantava e suspirava.
Ah, se ele soubesse que era ele, o dono de seus sonhos.
Outra voz ao longe, pode-se ouvir. Era autoritária e firme,
chamava-a pelo nome - e que belo nome- então ele se desesperou, pensando que
nunca mais iria vê-la. Ela correu de encontro à voz e saiu de seu campo de
visão.
Não vira mais a bela moça depois daquele dia. Ainda assim,
frequentava sempre o mesmo parque da cerejeira. Passeava com uma pequena
esperança de revê-la.
Acabou o inverno, a primavera passou, e também o verão e o
outono. Era inverno novamente e outra vez ele encontrara a bela moça.
Ele era o herdeiro de uma grande companhia de grande
prestígio. Portanto era um solteiro cobiçado, não apenas por isso, mas também
devido a sua beleza. Não tinha muitos sonhos para o futuro, pois estava
encarregado de comandar a empresa do pai quando este se aposentar. Mas pensava
nela e recusava as outras moças que viera a conhecer.
Ela era uma filha de um grande empresário também. No
entanto, estavam passando por problemas financeiros. Como filha dedicada se
preocupava com o pai e seu futuro. Ela sabia de suas responsabilidades e de seu
futuro já comprometido com algum casamento arranjado. Porém seus sonhos eram
outros. Queria viver um grande amor, ter uma vida simples e ganhar a mesma a
partir do próprio trabalho. Talvez fosse mesmo ter que trabalhar no fim, mas o
orgulho de seu pai a impedia de correr atrás deste sonho.
O destino então os juntara novamente, ela não o conhecia e
ele decorara seus traços nos poucos segundos em que a vira.
Estavam num ambiente ostentoso. Era uma festa da elite
japonesa. Objetos de decoração em tons dourados e vermelhos espalhados pelo
salão, um lustre de cristal suntuoso enfeitando o teto decorado com detalhes
artísticos no gesso, garçons em traje formal servindo champanhe caro em
bandejas de prata. Em todo o lugar via-se pessoas de porte nobre vestidos de
modo formal, as mulheres com joias lapidadas em pedras preciosas dos mais
variados tipos, homens de smoking exibindo seus discursos polidos com palavras
difíceis e sorrisos políticos.
Mas num canto, longe da agitação e dos sorrisos falsos jazia
a doce moça da voz de anjo. Ela sorria para o teto, admirada com todos aqueles
detalhes delicados. Nada poderia tirar seu sorriso, sempre via o lado bom das
coisas. Desde menina, sempre fora otimista e alegre. Perdera a mãe muito cedo,
porém isso só a recorda de estar sempre feliz para não entristecer a mãe que a
observava do paraíso.
Do outro lado do salão o anfitrião pede silêncio a todos.
Era um senhor com aparência austera, por baixo das rugas dava para ver que fora
tão bonito quanto seu filho aparenta ser. Começou seu discurso e a menina
piscava em silêncio transbordando de curiosidade. O que estaria fazendo ali?
Seu pai estava na iminência de falir e fechar para sempre as portas de sua
empresa, para completa desonra de seu falecido avô. Mesmo assim, esse senhor
nos convidara.
Então o senhor rico disse “Chegou a hora de me aposentar,
minha saúde já não é a mesma e quero aproveitar o tempo que me resta com minha
bela esposa.” Ele deu um passo à frente e segurou seu filho pelos ombros. “Por
isso, também chegou a hora de um novo começo para nossa empresa, sob o hábil
comando do meu amado filho e herdeiro.”
O rapaz sorria contente por receber a confiança de seu pai,
mas também estava nervoso diante da nova responsabilidade não podia
decepcioná-lo. A moça também se perdera em pensamentos, ficara admirada de
perceber a semelhança entre o belo rapaz e o homem de seus sonhos. Sim, sonhara
com ele, tudo era igual, mas não fazia sentido algum. Como pode esse completo
estranho habitar seus sonhos mais íntimos?
Todos aplaudiram e brindaram ao novo presidente. Este que já
era assediado por inúmeras mulheres ficara ainda mais interessante. Contudo só
havia uma em seus pensamentos, e esta era inalcançável. Chegara até a conclusão
de que tudo não passou de um fruto de sua imaginação. “E que imaginação.” Ele
pensara entre goles de champanhe.
O pai da moça era cordial com todos, porém continuava
reservado, todos sabiam de sua situação, mas ninguém se dispusera a ajudá-lo.
Ele também não aceitaria, seu orgulho era maior que seu sustento. Entretanto
suas preocupações se convergiam para sua amada filha. Uma menina tão meiga e
linda a qual merecia um futuro melhor do que aquele que o pobre pai pode
oferecer. Casá-la talvez fosse a melhor solução, não queria se separar de sua
princesa, depois que perdera a esposa ela tornou-se sua única companhia, assim
como o trabalho. Ele bem sabia também que homem nenhum seria digno de sua
filha, ou de seu coração.
Para o destino somos todos peças de seu jogo. Peões em um
jogo de xadrez, brinquedos para seu bel prazer. Pode então o destino jogar
conforme a felicidade dos apaixonados? Poderia ele reconhecer o amor que
nascera entre os dois e juntá-los em um só? Tudo começara debaixo de uma
cerejeira, numa tarde de inverno, ou será que já havia sido escrito e, portanto
iniciado há muito tempo atrás?
Ambos se retiraram para o jardim a fim de fugirem do
ambiente de extrema formalidade. Ela ainda sonhava com uma vida simples, mas
seus pensamentos estavam envoltos do lindo desconhecido. Poderia desistir de
seu sonho em prol de uma paixão recém-descoberta, ela se perguntava.
Ele não conseguia crer, seus olhos deveriam estar lhe
pregando uma peça. Uma linda ilusão encontra-la tão encantadora numa festa em
sua homenagem. Aproximou-se devagar, medindo a com o olhar, estava perdida em
pensamentos, preocupada com alguma coisa. Como gostaria de retirar as pequenas
rugas de seu cenho franzido e fazê-la sorrir. Talvez, só talvez, tivesse uma
chance, teria que arriscar.
“Uma linda noite de inverno não? As estrelas estão brilhando
com a iminência da primavera.” O jovem disse, colocando-se ao lado da bela
moça. Ela se encontrava surpresa, as batidas de seu coração falhando com a
rapidez de suas emoções. Seus olhos se encontraram, sim era ele, o mesmo dos
sonhos. “Minha mãe costumava dizer que as estrelas brilhavam mais quando algo
bom está para acontecer.” Ela respondeu com um sorriso tímido.
“Quem sabe este seja o início de algo maravilhoso.” Ele
disse de modo sugestivo. Também estava nervoso, mas disfarçava com sua pose
elegante. “Já não nos conhecemos?” Ela perguntou, talvez o tenha visto fora de
seus sonhos, só não sabia onde. Ele sorriu e estava prestes a dizer que sim,
iria contar-lhe do dia no parque.
Porém os pais de ambos vinham ao encontro dos dois naquele
momento.
“Ora, vejo que já se conheceram. Isso é bom, muito bom. Filho
esta é Sakura Nishimura, e este é seu pai, Takashi Nishimura. São velhos amigos
da família e de seu falecido avô.” O senhor anfitrião disse ao filho. “Sakura,
querida, vejo que conhecera o Hiroshi.” A moça assentiu para o pai e retornou o
olhar para o rapaz, então era esse o nome dele. Combina com sua aparência bonita
e sua personalidade poética. “Hum, enfim Takashi. Acho que é uma boa hora para
contar lhes as novidades.” Disse o pai de Hiroshi. Os jovens estavam curiosos e
se atentaram para notícias dos mais velhos. “Filha, eu e o senhor Nakamura
conversamos e decidimos seguir a vontade de seu avô, assim como a do avô do
jovem Hiroshi.” O senhor Nakamura retirou do bolso metade de um medalhão já
antigo, uma relíquia de família. Hiroshi engoliu em seco entendendo o propósito
de seu pai. “Este medalhão está na família há gerações, anos atrás a metade
dele fora dada para a família de sua futura esposa.” Sakura então ficara
estática ao ver a outra metade nas mãos de seu pai. “Minha filha preciosa,
tenho certeza que a vontade de seu avô faz parte da melhor das intenções,
também conheço a família Nakamura e sei que Hiroshi será um marido exemplar
para você.” Takashi disse para filha com os olhos úmidos pela emoção. Tanto
Sakura quanto Hiroshi se inclinaram e aceitaram a ordem dos pais.
Um casamento arranjado. Sakura sabia que isto salvaria seu
pai, sua honra e sua empresa. No entanto era um casamento arranjado, tinha a
impressão que era aquele o homem de seus sonhos, mas isso não impedia sua
insegurança.
Hiroshi tentava segurar sua expressão de felicidade, a moça
que procurara tanto, a qual se apaixonara pela primeira vista, seria sua
esposa. Teria que segurar suas emoções e não espantar a moça, ele faria de tudo
para ganhar seu coração.
Anunciaram o casamento, seria um grande evento para a elite
japonesa. Também uma grande perda para as solteiras de plantão. Ambos eram
extremamente cordiais um com o outro, mas mal sabiam que nos pensamentos e
coração de cada um residia o outro. Seria estranho admitir amar alguém cuja
existência fora revelada há tão pouco tempo?
Fora tão rápido, o noivado, o casamento. Estavam
anestesiados, faziam tudo quanto eram lhes dito, sorriam, acenavam e falavam
quando mandavam. Por dentro estavam confusos e felizes. Pois acharam um ao
outro. O destino, sim, prega peças, ri das desgraças que monta cuidadosamente. Porém
também é gentil com aqueles que abrigam um coração puro e carregam um amor
verdadeiro.
Sem saber, tudo começara debaixo de uma cerejeira numa tarde
de inverno qualquer. Os finais felizes são de certa forma clichês, mas são
tradicionais e confortantes. Como a brisa de inverno, a garoa do outono e
florescer da primavera. Clichês típicos e bonitos compõem um simples conto, um
simples sonho. Não de verão, este se passa no inverno na iminência da primavera
quando as estrelas brilham mais.

Adorei :DDD
ReplyDeleteebaaa, brigadaa lele
Delete